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Updated: April 8, 2026
Não basta compreender que a IA pode ajudar no ensino. É preciso trazer e construir uma visão crítica
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Assim como tantas esferas da vida, a educação tem sido permeada cada vez mais pela tecnologia, em especial a inteligência artificial generativa. Na sala de aula, o desafio é de mão dupla: alunos de diferentes níveis de ensino – do fundamental ao MBA – têm à sua disposição inúmeras novas plataformas para realizar tarefas e atividades. Ao mesmo tempo, as ferramentas abrem fronteiras e possibilitam que os professores explorem formas inovadoras de ensinar, embora tragam também suas questões éticas e práticas.
O impacto da chegada da inteligência artificial generativa à sala de aula desafia as concepções tradicionais do ensino, sobretudo por seu uso massivo e pela rápida adoção por parte dos alunos – mais rápida do que a reflexão dos educadores de como lidar com esse cenário.
A recepção de muitos profissionais e instituições a este fenômeno é, muitas vezes, reativa. Mas a conduta combativa é contraproducente e até irresponsável: nadar na contracorrente do avanço tecnológico é um exercício infrutífero. Seria o equivalente a, no início dos anos 2000, tentar impedir um estudante de usar a internet, por exemplo, uma ferramenta que pode, sim, potencializar o aprendizado.
É inegável que a IA poderá contribuir para melhorar a experiência dos alunos. Pode ajudar, por exemplo, no processo de brainstorm para o desenvolvimento de trabalhos acadêmicos. Ou servir como assistente para construção de sistemas e projetos envolvendo tecnologia. Isso só para trazer alguns casos simples em que a IA pode potencializar os processos educativos. Se pensarmos ainda que serão essas tecnologias que os estudantes encontrarão no dia a dia e no mercado de trabalho no futuro, faz sentido que as aprendam desde já.
Por isso, talvez a melhor forma de explorar as possibilidades educativas da IA seja colocando a mão na massa. As experiências práticas – principalmente aquelas centradas em projetos – poderão gerar casos muito mais educativos do que, por exemplo, uma aula 100% expositiva sobre essas ferramentas.
Mas não basta compreender que a IA pode ajudar no ensino. É preciso trazer e construir uma visão crítica. Ou seja, se de um lado do espectro temos a rejeição completa dessas ferramentas, do outro temos o uso indiscriminado e acrítico de tecnologias que, é importante lembrar, ainda estão em estágios de amadurecimento. E é fundamental que essa visão crítica seja construída conjuntamente com os estudantes, para que eles também entendam limitações e melhores práticas para lidar com a IA.
Este ponto de vista depende também de uma compreensão de como funcionam os sistemas de inteligência artificial generativa. É necessário que professores entendam essa operação, para que consigam entender também suas limitações e que consigam traçar planos robustos para traduzir as potências da IA. Mais uma vez, a experiência prática e aberta a experimentações pode ser bastante proveitosa para compreender de forma relevante os riscos envolvidos no uso da IA.
Seria ingênuo ignorar os riscos das alucinações dessas plataformas, por exemplo. É irresponsável usar IA no ensino sem considerar que as ferramentas podem trazer respostas equivocadas e errôneas. Mas, mais que isso, é preciso entender o porquê de as alucinações acontecerem e quais as formas possíveis de limitar esses desvios.
Também é necessário discutir de forma realista os impactos que a inteligência artificial terá sobre diferentes mercados e profissões. Ainda estamos distantes de um universo em que as máquinas vão substituir funções humanas. Mas isso não significa que não haverá efeitos importantes – e alguns deles, inclusive, já estão sendo sentidos.
Na maior parte dos casos atuais, a IA tem sido utilizada mais como uma impulsionadora de produtividade do que como uma substituta. Ou seja, a tecnologia vem cumprindo um papel auxiliar, que libera humanos de atividades mecânicas e repetitivas (para não dizer robóticas) para poderem priorizar funções mais estratégicas.
A recepção de muitos profissionais e instituições a este fenômeno é, muitas vezes, reativa. Mas a conduta combativa é contraproducente e até irresponsável: nadar na contracorrente do avanço tecnológico é um exercício infrutífero
A tendência é que, no futuro, alguns empregos percam, sim, espaço para a inteligência artificial – e o tempo desse movimento ainda é incerto. Mas é preciso ser realista: tudo indica que a inteligência artificial terá um papel transformador em diferentes frentes.
Quando falamos em ensino superior, estamos falando justamente da preparação de jovens para a entrada no mercado de trabalho. Por isso, é preciso trazer a discussão dos impactos da IA para as instituições de ensino superior. É uma questão de responsabilidade com os alunos que estão iniciando suas vidas profissionais.
Aliás, precisamos ir além: é preciso repensar a universidade e abraçar a transformação impulsionada pela inteligência artificial desde a metodologia. A tecnologia já é essencial em todas as esferas da vida dos estudantes de diferentes idades e gerações. Se não optar voluntariamente por fazer parte desse movimento, a educação pode ser engolida pela tecnologia.
Afinal, a IA já faz parte do mundo: ela adentrou nas nossas vidas como um todo, e tende a expandir ainda mais a sua presença na sociedade nos próximos anos. Por isso, as instituições de ensino – não só o ensino superior, mas de todos os segmentos – têm o dever de preparar seus alunos para esta nova realidade.
Não adianta negar esse movimento. É preciso debater e encontrar formas de incluir inteligência artificial nas práticas de ensino e aprendizagem (respeitando cada segmento e faixa etária), para que os alunos saibam usar as tecnologias e saibam navegar nesse mundo. E isso significa também discutir de forma responsável essas ferramentas, com todas suas implicações, sejam elas práticas ou éticas, e construir, com experiências reais, o entendimento mais completo possível sobre elas.
Por isso, é preciso repensar o ensino como uma mera transmissão de conteúdo. A educação precisa, sim, abraçar as novas ferramentas que surgem, para se tornar, na realidade, um lugar em que se possa experimentar e arquitetar coletivamente a nossa nova relação com a tecnologia.
A visão realista da IA e de seus impactos – sejam eles positivos ou negativos – é essencial para que essa mudança seja, ao mesmo tempo, transformadora e crítica. Se a inteligência artificial for vista como inimiga ou salvadora da educação, não será possível exercer a nossa responsabilidade enquanto educadores de formar, preparar e estimular as próximas gerações. Antes de tudo, precisamos ser realistas.